Trem de Ferro

dezembro 17, 2010

A ferrovia com seus trilhos gastos, trilham em direção ao norte;

Na plataforma vazia, acena o lenço úmido por pupilas marejadas pela despida;

Partiu sem deixar nada que me traga alento;

O caminho da distância mais próxima que nos separa;

Apenas o recomeço do agora que não temos;

As montanhas escalam céus desabitados por deuses sorridentes;

Planícies saltitantes de árvores enfileiradas dão passagem ao aço;

Ali imóvel soletro até breve esperançosa por mais um abraço,

Uma noite calorosa nesses dias frios.

O inferno aquecido de seus lábios;

Desço os últimos degraus de esperança;

Sentada neste banco frio, observo os pássaros que vagueiam sem verão;

As andorinhas perdidas sem estação;

A migração desvirtuada em busca do sul;

O sol silencioso abandona o céu lá longe ao oeste;

Com a cabeça apoiada entre os braços degusto o sabor real de seu ósculo: doces como pétalas de rosa;

Arrepiada sinto a suavidade epitelial de seus toques;

Choro…

Lágrimas salgadas…

Nunca mais nos veremos, jamais nos tocaremos, nossos olhares separados pelo restante da existência;

O desespero me domina,

Disparo descalçando os sapatos….

Quero alcançar seu vagão…

Gritar repetidas vezes que te amo…

A velocidade dos trilhos supera meus pensamentos, subtrai minhas forças;

Exaurida vejo as colinas engolirem a composição;

Meu choro não é adocicado, lamento…somente angústia,

O ódio de minha covardia revertido em delírio;

Agressividade apodrecendo os ossos…corroendo minh’alma;

Desejo ser o horizonte para lhe encontrar no desembarque;

O que sobrou de mim se arrasta até a plataforma destilando veneno letal de arrependimento;

Culpabilização por acreditar que a distância seria cura;

Que o adeus seria recomeço, nova vida…

Mas onde encontro a vida se existo em ti?

Cabelos emaranhados, rosto banhado a suor e fúcsias adquiro no guichê mais próximo minha passagem para lugar nenhum, pois na fraqueza de lhe ver partir faltou coragem para questionar qual local desceria portando consigo meu amor;

Embarco para os limites de meus erros, que o destino me carregue.

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